Não há dúvidas de que a internet trouxe facilidade e rapidez aos usuários do mundo inteiro para fazerem compartilhamento de vídeos, imagens, áudios, documentos, notícias. Enfim, trouxe efetiva proximidade de interação social entre as pessoas no mundo virtual.

No entanto, da mesma forma que há infinidade de benefícios, também há dentro deste cenário uma grande preocupação que vem sendo diariamente discutida e combatida: as Fake News.

Durante o final do século XIX, no Brasil, cartazes anônimos com falsas informações eram espalhados pelas ruas nas vésperas das eleições buscando a difamação de políticos. Um século depois, o fenômeno cultural ainda persiste, mas em um palco muito mais amplo e complexo: a internet.

A problemática das fake news não é nova, o que mudou foi o meio. As redes sociais e essa possibilidade de comunicação por aplicativos tornaram o alcance e velocidade muito maiores.

A divulgação de mentiras ou “meias-verdades” ganhou notoriedade nos últimos anos, sobretudo no cenário político (mas já adianto: para além dos políticos, as fake news são capazes de atingir negativamente qualquer ser humano, esteja ele na internet ou não).

Mas afinal, o que são Fake News?!

“Notícia Falsa”

O termo significa “notícias falsas”, em tradução livre do inglês. Na prática, ele é utilizado para definir boatos, rumores ou notícias imprecisas publicadas geralmente na internet. Ou seja, são antigos conhecidos de quem trabalha na área da comunicação.

Em 2016, o então candidato Donald Trump usou bastante a expressão em sua campanha durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos – isso certamente ajudou a popularizá-la. Mas foi no ano seguinte, em 2017, que essa popularização se concretizou quando – não por acaso – foi considerada a palavra do ano pelo dicionário Collins.

No Brasil, elas são disseminadas principalmente nas redes sociais. Não é raro encontrá-las no feed do Facebook, Instagram e em grupos no WhatsApp, usadas para espalhar vírus e, até mesmo, distribuir golpes aplicados por estelionatários.

Trump durante as eleições de 2016

Por que uma fake news é um problema?

Segundo levantamento feito pela Psafe DFNDR, aplicativo de segurança para Android, somente em 3 meses de 2018 mais 8 milhões de brasileiros foram impactados com Fake News e 95,7% dessas notícias falsas foram disseminadas por aquele famoso app de mensagem instantânea: o WhatsApp.

Um estudo feito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) concluiu que as notícias falsas se espalham na internet 6 vezes mais rapidamente que as notícias verdadeiras. E esse resultado não tem a ver com a ação de robôs, mas sim com o comportamento das pessoas.

Tendo o Twitter como principal objeto de estudo, a pesquisa concluiu ainda que as notícias falsas se espalharam entre 1 mil e 100 mil pessoas, enquanto que as verdadeiras não chegaram a mais de 1 usuários.

A difusão de fake news teve ainda mais alcance, velocidade, profundidade e abrangência do que as notícias verdadeiras.

Vivemos em um século intensamente conectado, com acesso fácil e veloz às informações mundiais. Enquanto nação, somos um dos povos mais conectados de todo o Globo. Segundo o IBGE, em 2017 o Brasil já possui mais de 126 milhões de usuários de internet, sendo que 88,4% desse total é destinado aos jovens de 20 a 24 anos.

Agora imagine se cada uma dessas pessoas compartilhasse uma Fake News. Não seria um impacto gigantesco e catastrófico na vida das pessoas?

Fake news podem ter impactos negativos irreversíveis

Divulgar Fake News é um pratica muito perigosa. Compartilhar informações falsas, fotos, vídeos manipulados ou qualquer outra publicação duvidosa pode trazer riscos para a saúde pública, incentivar o preconceito, a violência e até mesmo resultar em mortes por causa da desinformação.

Vale resgatar um caso de 2014, quando acusaram falsamente uma mulher de matar crianças para fazer magia negra no Guarujá (SP), e após a circulação das notícias falsas, espancaram-na em praça pública até a morte. 

Outro fértil território para as fake news é o político. Já é comprovado – e pôde ser assistido – o quanto a disseminação de conteúdo falso, sobretudo na internet, influencia diretamente no contexto político. Como exemplo temos as eleições americanas de 2016, onde a prática foi explicitamente propagada. Dois anos depois, nas eleições de 2018, temos o Brasil como principal palco de mais escândalos ocasionados, em parte expressiva, pelas fake news.

Impactos nas empresas

As fake news também são nocivas para as empresas

Fabricadas, na maioria das vezes, por pessoas e por grupos mal-intencionados, as notícias falsas são capazes de enganar e modificar a realidade. E, dentro das corporações, o impacto das fake news não é diferente.

Mesmo não estando entre os temas estratégicos das empresas, a maioria (85%) manifesta preocupação com as notícias falsas, embora acredite que eventuais riscos possam ser mitigados ou evitados.

O dado é do estudo “Fake News: Desafios das Organizações”, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), realizado a fim de compreender a dimensão do problema causado pela disseminação de notícias falsas dentro do ambiente de trabalho. O levantamento foi feito entre fevereiro e abril de 2018, por meio de autopreenchimento em sistema online, com 52 empresas.

Tanto as organizações (35%) quanto os setores em que atuam (46%) já foram alvos de notícias falsas.

De acordo com a pesquisa, para as empresas, os principais impactos relacionados à publicação e disseminação de fake news são: danos à reputação da marca (91%), à imagem da empresa (77%), à credibilidade da organização (40%), à imagem do setor (28%) e à reputação da liderança (13%); e perdas econômicas e financeiras (40%).

Além disso, o compartilhamento de notícias entre amigos e familiares pelas redes sociais é visto por 47% dos participantes com alta incidência de fake news.

As redes sociais parecem ter feito a produção de informação fugir do controle, o que dificulta a distinção entre o emissor e o receptor. Isso coloca o consumidor no patamar de produtor de conteúdo, só que sem os controles necessários de checagem.

As redes sociais têm potencializado a pandemia das fake news

E em tempos de Coronavírus?

Atualmente o mundo está mergulhado em uma profunda crise na saúde pública. Os impactos da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) são expostos dia após dia na mídia mundial, trazendo novas atualizações de contaminados, mortes e colapsos na saúde de vários países.

Até o fechamento da edição dessa matéria já havíamos alcançados mais de 500 mil casos confirmados da doença em todo o mundo. E a situação só tende a piorar, sobretudo no Brasil que está prestes a passar pelo período de pico da pandemia. Comércio, escolas, universidades, bancos, igrejas: tudo fechado por conta do Coronavírus e passamos ainda por um isolamento social na intenção de frear o crescimento de novos casos no país.

A facilidade de contágio do vírus veio acompanhada pela propagação de notícias falsas e informações equivocadas nas redes sociais. A plataforma “Saúde sem Fake News”, do Ministério da Saúde, já desmentiu centenas de boatos que ganharam força na internet – a maioria deles com supostos métodos de prevenção e cura milagrosa da Covid-19, doença causada pelo agente patogênico coronavírus.

“Talvez as fakes news sejam a pior epidemia dessa atualidade. Atrapalha em poder oferecer uma assistência médica de qualidade, é desserviço para a sociedade, gera pânico e dissemina informações erradas sobre doenças”, observou Alexandre Rodrigues, presidente da Sociedade de Infectologistas do Espírito Santo.

O médico faz uma orientação sobre as falsas notícias que são repassadas de aparelho para aparelho: “Não repassar. É a primeira orientação. Busque informações em sites consolidados e cheque a veracidade”.

As fake news podem ser tão letais quanto o coronavírus

E as fontes mais confiáveis para obter informações verdadeiras sobre a situação do coronavírus são as oficiais, existentes em cada região. Como as do Governo e da Saúde do Estado. Temos ainda a página do Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância Sanitária, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o app do SUS (para Android ou IOS) e Organização Mundial da Saúde (OMS).

Listamos algumas ações que as 4 maiores plataformas digitais têm feito para coibir a propagação das notícias falsas neste cenário de pandemia do Coronavírus:

#Facebook

No Brasil, o Facebook, maior rede social do mundo, tem removido conteúdos falsos divulgados sobre o coronavírus e tem direcionado os usuários que buscam notícias sobre a pandemia ao site do Ministério da Saúde.

“Procurando informações sobre o coronavírus? Veja as informações mais atualizadas do Ministério da Saúde do Brasil para você se prevenir e ajudar a evitar a disseminação do vírus”, diz a mensagem que aparece para os usuários na busca.

“Estamos removendo notícias falsas e teorias da conspiração que foram sinalizadas por organizações de saúde do mundo todo e que podem ser nocivas para as pessoas que acreditam nelas”, disse Steve Hatch, diretor do Facebook no Reino Unido, em comunicado oficial.

Boatos são sinalizados pelos usuários, e a empresa faz a checagem de informações como forma de verificação.

No WhatsApp, aplicativo de propriedade do Facebook, a coibição da propagação se torna mais difícil, já que as conversas são criptografadas. Assim, a checagem dos fatos depende apenas da sua responsabilidade, capacidade e boa vontade.

#Twitter

Assim como o Facebook, o Twitter afirma estar removendo boatos e notícias falsas sinalizadas por usuários ou autoridades e direcionando aqueles que buscam informações à página do Ministério da Saúde.

“Conheça os fatos. Para garantir que você tenha as melhores informações sobre o coronavírus (covid-19), recursos do Ministério da Saúde estão disponíveis”, diz a mensagem que aparece para os usuários que buscam informações sobre a pandemia.

#Instagram

O Instagram, de propriedade do Facebook, diz remover conteúdos falsos sobre o novo coronavírus, mas direciona os usuários para a página da OMS de maneira mais discreta: em vez de mostrar uma mensagem direta sobre a busca de informação qualificada, a plataforma apresenta o perfil da organização no topo dos resultados.

#YouTube

O YouTube lançou uma página inteira dedicada ao coronavírus, na qual fornece informações de contato para as principais autoridades sanitárias do mundo e explica suas medidas para combater a desinformação sobre a pandemia.

A plataforma de vídeos está removendo conteúdos que foram sinalizados pela comunidade e que trazem informações falsas sobre o coronavírus.

Além disso, a plataforma não está permitindo a monetização de vídeos sobre o assunto, exceto em canais que são verificados.

Nos conteúdos que tratam do tema, a plataforma também incluiu um link para a página da OMS.

E de que forma eu posso combater as Fake News?

Analisar, Pesquisar, Confirmar e Denunciar: estes são os 4 passos fundamentais de combate às notícias falsas!

Sabemos que com os vários conteúdos duvidosos espalhados na internet, fica mais difícil detectar o que é notícia (fato) e o que é falso (fake) hoje em dia.

Por isso, é muito importante que alguns cuidados sejam tomados antes de compartilhar informações:

1. Avalie a fonte, o site e o autor do conteúdo

Muitos sites publicadores de fake news têm nomes parecidos com endereços de sites de notícias. Portanto, avalie o endereço e verifique se o site é confiável.

2. Analise a forma como o texto está escrito

Sites que divulgam fake news costumam apresentar erros de português, de formatação, letras em caixa alta e uso exagerado de pontuação. Títulos sensacionalistas também são muito usados.

3. Atenção com vídeos, fotos e áudios

Imagens e áudios podem ser facilmente editados e tirados de contexto. Desconfie de vídeos que mostram cenas incomuns. Tente encontrar a gravação original e pesquisar as circunstâncias em que ela foi feita.

4. Verifique se não trata apenas de uma piada

Alguns sites de humor são irônicos em publicações, no sentido de fazer piada com determinados assuntos. Cerifique-se de que não se trata de um deles antes de compartilhar uma notícia.

5. Pesquise em outros sites/fontes

Duvide se você receber uma notícia bombástica que esteja só em um determinado site. Se o site for duvidoso, basta procurar o assunto em outros portais de grande circulação, considerados confiáveis. As notícias de impacto sempre estarão presentes nestes veículos.

6. Leia o conteúdo completo da notícia

Muitas vezes o título e subtítulo não condizem com o resto do conteúdo. Isso pode ser usado para chamar a atenção do leitor, como uma isca. Leia todo o conteúdo antes de divulgar.

7. Autor

É comum que fake news não tenham a identificação do autor. Mas se o nome estiver publicado, verifique se é uma pessoa conhecida ou se ela já escreveu outros textos e se eles são verdadeiros.

8. Data de publicação

Veja se a notícia ainda é relevante e está atualizada. Algumas pessoas compartilham notícias antigas como se fossem atuais e isso pode gerar confusão.

9. Desconfie de chamadas de ação

Compartilhe apenas informações que você tem certeza que sejam verdadeiras e desconfie de chamadas que “convocam” as pessoas a tomarem alguma atitude. “Mande esse texto para todos os seus contatos” ou “faça essa mensagem chegar ao maior número de pessoas” são frases comuns em textos que têm notícias falsas.

10. Agências de verificação

Observe se a informação que você recebeu foi verificada por grupos de checagem como o Fato ou Fake ou Agência Lupa, que realizam um trabalho de investigação de dados e informações de conteúdos com grande disseminação na internet, identificando o que verdadeiro ou falso.

11. Denuncie

O forte cenário das fakes news no Brasil fez com que agências de checagem de fatos fossem criadas, como a Lupa, Truco e Aos Fatos. Elas têm como objetivo a incumbência de investigar veracidade de notícias, declarações e boatos.

Além das agências de checagem, o Ministério Público Federal criou o Grupo de Apoio sobre Criminalidade Cibernética. Os agentes do MPF estão prontos para receber denúncias de fake news. Para fazer isso, basta entrar no site da Sala de Atendimento ao Cidadão (colocar link) e seguir os passos necessários.

Educação Digital: uma necessidade social

É necessário educar digitalmente a sociedade

Um dos meios mais eficazes em combate às Fake News é a denominada Educação Digital. O professor e especialista em Direito Digital, Marcelo Crespo, assegura essa afirmativa:

“Educação digital é a conscientização e treinamento das pessoas para o uso das tecnologias, permitindo-lhes atuação correta, ética, livre de riscos ou com estes minimizados, de modo a não incorrerem especialmente em práticas danosas e com consequências jurídicas não desejadas. Educar digitalmente não pode se resumir a ensinar o uso, na prática, da tecnologia, como o envio de uma mensagem de texto pelo aparelho celular ou de se fazer uma vídeo-chamada entre computadores. É preparar as pessoas para que possam diante da fluência de informações e da enxurrada de novos aparelhos eletrônicos, atuar adequadamente, permeados pela ética e pelas normas jurídicas”.

A educação, sem sombra de dúvidas, é o melhor caminho para o uso consciente da internet, que consequentemente evitará a proliferação de Fake News, pois o usuário bem informado e educado, irá repensar e pesquisar determinadas notícias, antes de compartilhar.

E como já dizia o educador, pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

É neste cenário que a educação digital se insere como fundamental na vida das pessoas. Não apenas como uma forma de combater a Fake News, mas também de combater a pornografia infantil, potencialização do ódio, disseminação de mentiras, cyberbulling, ofensas a dignidade da pessoas em sentido amplo.

Temos um mundo em nossas mãos e isso requer responsabilidade

Por isso, é necessário entendermos a nossa responsabilidade social diante dos benefícios digitais que nos são possíveis. Usar a internet de forma consciente, ética e saudável nos torna melhores usuários e consequentemente melhores pessoas.

Portanto, não pense duas vezes para checar uma notícia duvidosa antes de compartilhá-la. Lembre-se sempre que isso não é somente uma prevenção individual, mas também respeito com todo um coletivo.

Fake news viraliza, polemiza e mata. Não curta, comente nem compartilhe essa ideia!

Tens dúvida? Não compartilhe!

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